Qual é o sentido do chá para você?

Qual sua primeira memória de sabor, aroma, cor, textura, cenário, produzida a partir da palavra chá?

A minha memória me leva direto para a cozinha da minha infância, vejo minha mãe me servindo minha primeira infusão de camomila. Logo depois, minha memória me leva à casa da minha avó paterna, lá escuto minha vó falando de chá de erva cidreira ou de boldo para alguém que não passava muito bem do estômago. Sinto também o cheiro de arnica, da tintura que meu avô fazia, curando as dores musculares de toda a família. Outra cena também me vem, minha bisavó materna sentada na poltrona emaranhada por um aroma extremamente forte de arruda, que, de acordo com ela, ajudava a curar sua catarata.

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Calêndula, excelente anti-inflamatório. Foto por @chaismoscotidianos.

Quando criança vivia pedindo os chás da minha mãe. Só agora, na vida adulta, fui descobrir que, se eu estivesse do outro lado do mundo, lá pelas bandas da China e do Japão, fazendo esse mesmo pedido, estaria pedindo uma infusão das folhas de chá, ou seja, um preparo das folhas da planta Camellia sinensis em água quente. E assim como minhas infusões de camomila, estas outras, estariam completamente relacionadas com a cultura do local, com as práticas da vida cotidiana e com os métodos de produção de saúde e cura.

Se nas últimas décadas vivemos uma explosão da alopatia e um crescimento assustador da indústria farmacológica, que, além de vender formas de cuidado, quer ditar o que faz bem ao nosso corpo, percebo que nos últimos anos esse cenário vem mudando. Há uma conscientização de que estamos perdendo a autonomia em relação às formas de cuidar do nosso corpo. O que prevalece é um cansaço e uma alarmante sensação de impotência diante de uma medicina pautada na cura da doença ao invés de investir na produção de saúde.

Estas cenas, desde a cena da infância, às questões atuais relacionadas à indústria farmacológica, são cenas que vem de mim, e de dezenas de outras pessoas que passaram por mim nos dois últimos anos, desde que comecei a dar oficinas sobre práticas de cuidado de si através das plantas medicinais (para ver mais @chaismoscotidianos). Em todas as oficinas, sempre procurei começar com uma roda de conversa em que todos falavam um pouco das relações com as plantas e suas primeiras memórias destas. Percebi, desde a primeira oficina, que esse era um dos momentos mais mágicos e fortalecedores desses encontros.

Sabe aquele sentimento de solidão e impotência que diariamente tem nos invadido a respeito de como nos cuidar, como cuidar do mundo, como repensar o ecossistema que nos rodeia, como reinventar nossas relações com a vida? Todas elas ficam menores quando você se senta em roda com pessoas completamente desconhecidas, que se propuseram a estar ali, naquele encontro, pelo simples fato de quererem pensar junto em novas formas de se cuidar e se relacionar com seu corpo-mundo. É nesse momento de generosidade e gratidão que você percebe que está longe de estar sozinha e que é hora de intensificar pesquisas, fortalecer sua rede de encontros e trocas.

Desde que comecei minha pesquisa com alimentação e plantas medicinais, a relação com meus amigos mudou um tanto. Passei a ser convocada por eles de novas formas. É comum um ligação ou uma mensagem de alguém dizendo “estou com dor de garganta e muito muco, sabe qual chá posso fazer?”, ou “estou com a pele muito oleosa, qual chá é indicado?”. É tão estranho, confuso, e, ao mesmo tempo, familiar e potente receber essas demandas. As aceito com convocações, reais chamados para um estudo no qual estou apenas dando um pontapé inicial.

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Aula de Introdução à Fitoterapia, do curso de Formação em Sommelier de Chá, do Instituto CHÁ.

A pesquisa das plantas medicinais nos coloca num terreno de total impotência, pois, muitas vezes, olhamos a natureza ao nosso redor e não nos sentimos como parte dela. Muito pelo contrário, sentimo-nos completamente desconectados de suas forças e poderes. Ao mesmo tempo, tal campo de pesquisa, coloca-nos em estado de retomada de sentidos e memórias. Percebemos nosso corpo trabalhando de forma silenciosa, reconectando-se com o ecossistema que o constitui, retomando saberes sobre si. Essa é a grande magia do nosso tempo: podermos retomar toda a energia ancestral que nos habita, somando-a a tudo o que a ciência pode nos proporcionar quanto a meios de pesquisa e criação. Ativando a memória de que o próprio corpo é nosso maior campo de pesquisa: o corpo e suas sensibilidades, o corpo e seus micro processos intensivos, intuitivos, de produção de cuidado.

É um pouco sobre essa minha própria caminhada, os encontros do caminho e as descobertas derivadas desse processo que irei compartilhar com vocês nos meus textos quinzenalmente. Sejam bem-vindos 🙂

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