Rize, o faroeste turco

Em Rize, fui muito bem recebida por jovens couchsurfers que estão se formando na Marinha. Além de me levarem para conhecer as redondezas, também conversamos muito sobre os costumes locais.

Eles me explicaram que a maioria das pessoas de Rize tem muito dinheiro. Costumam ter uma casa na cidade e uma casa na montanha, com plantações de chá. Conservadores, os homens trabalham ou jogam gamão enquanto tomam chá nas kirahthanes (casas de chá e jogos, só para homens) e as mulheres trabalham em casa e na fazenda.

cha em movimento

Antes de vir para o Mar Negro, eu estava assustada. Meus amigos turcos de Istambul me disseram que era super arriscado uma mulher estrangeira vir sozinha para esses lados. (Leia aqui meu post de desespero em ser uma mulher viajante no Oriente Médio.) Uma das coisas que me disseram é que em Rize todo mundo tem arma.

– É verdade que todo mundo tem arma aqui?

– É.

– Vocês têm arma?

– Não. A gente não é daqui.

– Ah, é mesmo!

Perguntei pra eles se não existe um controle, porte de arma etc. Na verdade, a posse de armas está fora do controle da polícia. É praticamente uma tradição na região. Muitas famílias, inclusive, produzem suas armas em casa, usando até canos de água, por exemplo. Como controlar?

Meus novos amigos também me contaram que as pessoas atiram nas outras por muito pouco.  É quase um faroeste turco. Melhor não brigar com ninguém, não discutir, não olhar torto, não encarar. Melhor é ser suave, educado, discreto e continuar vivo.

Mas não me assustei com a confirmação de que todo mundo tem arma em Rize. Durante esses 40 dias no Mar Negro, tive que aprender a melhor forma de sobreviver como uma mulher ocidental em um país com costumes muçulmanos tão conservadores. A maior lição foi: aprender a se camuflar. A partir do momento em que você se comporta como um local, ninguém se incomoda com você. Você não chama tanta atenção e deixa de ser um alvo fácil.

Outro fato que confirmei é que as mulheres não andam sozinhas à noite. Na verdade, se vê poucas mulheres na rua durante o dia todo. Em Borçka – cidade mais próxima da plantação de chá onde morei por um mês -, eu via uma mulher a cada 30 homens. Sim, eu contei. E, a maioria delas são estudantes, de até 17 anos. Depois disso, ou elas casam e viram donas-de-casa ou elas vão para grandes capitais fazer faculdade, como Istambul ou Ankara. Obviamente, algumas das mulheres da região do Mar Negro trabalham, mas elas são minoria. Em Rize, eu encontrava na rua uma mulher a cada 10 ou 15 homens. A diferença já diminui. Mas nenhuma anda sozinha de noite.

velório turco

Na frente da minha casa, em Çifteköpru, mais de 200 homens se dirigem à mesquita para uma cerimônia de velório, em que só homens participam. Eu fui na parte II do velório, na casa da família. Foi tão forte, tão comovente. A história vai ficar pro livro.

Então, se nenhuma mulher local anda sozinha à noite, por que eu andaria? É uma questão de se adaptar para se proteger. Sempre tento ser o mais discreta possível.

Hoje é sexta-feira, e sexta-feira é o domingo dos muçulmanos. São 11h, e às 11h das sextas-feiras, todos os homens (as mulheres não participam desse ritual) vão para a mesquita rezar. Eu, passando pela principal mesquita da cidade, caminho lentamente e observo. São tantos e tantos homens que muitos não cabem dentro da mesquita, ficam do lado de fora, ou mesmo do outro lado da rua.

Queria muito, muito, ter tirado uma foto. Todos enfileirados. Ajoelha, agacha, levanta. Também poderia ter feito um filminho para registrar os movimentos da reza. A voz que sai pelos alto-falantes invade toda a rua, todas as casas, de todas as cidades de todo o país. A voz reza em árabe e não em turco. E eles, assim como eu, não entendem muitas palavras além de “Allah”. A reza é embalada, parece cantada, e todos se movem e rezam em sincronia.

Queria muito, muito, ter tirado uma foto dessa cena. Mas no faroeste turco, acho que estaria me arriscando. Por outro lado, acho que ninguém atiraria em mim durante a reza.Uma turista protegida por Allah. Mas mesmo assim, achei melhor não me arriscar e gravei a cena mentalmente. Espero que vocês possam imaginar ou um dia vir pra cá ver.

Ainda assim, por incrível que pareça, as pessoas que vivem aqui consideram a cidade segura, pois não há assaltos e roubos. A única dica é ser um cidadão pacífico.

Não tenho mais medo de estar no mar Negro. A verdade é que não me sinto sozinha. Tenho sido tão bem recebida e tão bem tratada pelos novos amigos turcos do Mar Negro que me sinto segura. Sempre tem alguém cuidando de mim.

Não me sinto sozinha. Não tenho medo. Mas ainda assim, ando com o celular em um bolso e um spray de pimenta no outro. Só por precaução.