A Geórgia e o chá que virou vinho

Fui para a Geórgia em busca de chá, mas acabei encontrando muito mais vinho. A cidade escolhida foi Tbilisi, capital da Geórgia. O Yasar – dono da plantação de chá na Turquia onde estou trabalhando – também foi. Eu, atrás de chá, ele, atrás de liberdade – já que a Geórgia não é um país muçulmano e lá o consumo de álcool é liberado.

Ficamos na casa do Giorgi, um georgiano que conhecemos pelo couchsurfing. Por coincidência, quando chegamos era dia do Santo Giorgi. Ele – o amigo, não o santo – me explicou que o Santo Giorgi é um grande ídolo dos georgianos. A lenda conta que ele matou dragões para proteger seu povo. Não é à toa que o nome do país é Geórgia. Em homenagem a tudo isso, tiramos uma foto do Giorgi no Dia de São Giorgi, na igreja do Santo Giorgi, na Geórgia.

giorgi igreja st giorgi

Quando perguntei pro Giorgi – o amigo, não o santo – qual era a bebida preferida dos georgianos, chá ou café, ele respondeu: vinho. Aí entendi que a tradição em tomar chá havia mudado. Meus livros de chá indicam a Geórgia como um produtor importante de chá. E, na internet, diversos sites dizem que em Tbilisi tem plantações de chá. Mas, a verdade é que não tem. A Geórgia fazia parte da União Soviética. Era um grande produtor de chá, e distribuía por toda a antiga URSS. Mas, com o fim da União Soviética, a Geórgia ficou sem ter pra quem vender chá. E aí, as fábricas foram fechadas e as plantações de chá foram substituídas por outras plantações.

fabrica

Ok. Em Tbilisi não tem chá. Mas eu queria visitar plantações de chá! O Giorgi, muito solícito, disse que iríamos procurar. Ligou pra alguns amigos, perguntando. Até que um deles perguntou se a gente queria ir no vinhedo dele engarrafar vinho. O Giorgi me perguntou: “Ao invés de visitar uma plantação de chá, vocês querem ir visitar uma plantação de… vinho?”. Eu olhei pro Yasar e seus olhos brilhavam. Os meus também brilhavam. Eu amo chá, mas também amo vinho. E, pra me perdoar, hoje descobri que existe chá de vinho do porto. Pronto, posso tomar vinho e ainda assim, isso ter a ver com chá.  🙂

vinhos engarrafados

E lá fomos nós, para o vinhedo do amigo do Giorgi. Achei que era perto, mas levou uma hora e meia de estrada. Que bom, porque quanto mais a gente se afastava da capital, mais eu gostava da Geórgia. Terreno plano, verde, amarelo, laranja e vermelho. Plantações de todos os tipos que agora definhavam com o inverno recém-chegado.

revolta das ovelhas

As ovelhas fazendo um protesto contra a produção de lã.

Em meio aos campos arados, vejo grandes construções antigas e logo lembro com amor do interior da França e seus castelinhos e castelões espalhados por todos os campos. Pergunto pro Giorgi se são castelos e ele me explica que são antigos fortes. Lindos!

forte

Engarrafamos os vinhos. Tomamos vinho. Que delícia é o vinho caseiro. Gosto de fruta, gosto de açúcar. Toda mulher se apaixonaria. Provamos também conhaque caseiro, que um dos amigos do Giorgi – que deve ter uns 70 anos – produz. Ele tomou vários, vários shots de conhaque. Nem tentei acompanhar.

brinde

Gaumarjos! (giorgiano)
Şerefe! (turco)
Saúde! 🙂

A Giorgia não tem muito chá. Mas então, tem algum doce?, perguntei. Não, disse o Giorgi. Pra minha sorte, tem comida da boa. Comemos em um restaurante de lamber os beiços. Essas gostosuras são típicas da Geórgia. Já pedi pro Giorgi pedir a receita pra mãe dele. Vou ter que servir na minha casa de chás. Eram tão bons! Comi todos os dias em que ficamos lá! De carne, de cogumelo, de queijo… Hummmm!

comidinha

Esse é um dos pratos mais tradicionais da Geórgia. Parece um pierogui, mas tem recheio diferente. Também tem um jeito certo pra comer. Com uma mão, segura a ponta da trouxinha, com a outra, segura o fundo. Dá uma mordida bem pequena e toma o caldinho que a carne fez ao cozinhar ali dentro. Hummm! Depois, vai comendo à vontade. O Giorgi me contou que cada pessoa come entre 10 e 20 desses, podendo comer até 40!!!.A unidade custa, em média, 70 centavos de laris. (quase equivalente ao real)

prato delicia

Vitela frita com molho de tomate e marmelo. ❤ Hummmm!

A outra história engraçada é que, num sábado à noite, disse pro Giorgi que eu iria cozinhar. Como ele não tem forno, pensei em uma receita gostosa que usasse só a boca do fogão: batata suíça. Compramos os ingredientes e lá fui eu cozinhar. Pra começar, a frigideira não tinha teflon. O fogão também não era fogão, mas um cooktop elétrico, com temperatura bem baixa. Comecei a ver que não ia dar certo e a me desesperar. Odeio que minhas receitas dêem errado. Mas também odeio cozinhar na cozinha dos outros, sem conhecer o “equipamento”. Eu ali, perdida no meu desespero, tentando achar uma solução. Até que chegam mais amigos e amigas do Giorgi, e ele nos apresenta. Esse aqui é o fulano, que tem um programa de culinária na TV. Eu queria sumir. Fiquei morrendo de vergonha. Mas, no final da noite, fomos todos pra casa do Ana Maria Braga georgiano. A cozinha dele era uma bagunça. Pilhas de pratos e panelas por todos os lados. Não perdi a piada “Is THIS your kitchen?”. Parei de me sentir mal e lembrei que somos todos humanos. 🙂

gatinhos espertos

Gatinhos espertos do Giorgi. Ficam do lado do aquecedorziiiinho! 🙂

Adorei a Geórgia. Adorei a comida deles. Adorei o vinho caseiro também. ❤ Por sorte, ainda achei dois lugares bem gostosos pra tomar chá (posts em breve), ainda que lá o chá não seja mais tradição.

roda gigante longe

Um dos principais pontos turísticos de Tbilisi. Uma roda-gigante, e todo um parque de diversões, no alto da montanha! 😀

roda gigante

Eu fui! Uhuuu! Vista maravilhosa! Pena que tava nublado… 🙂