Casamento turco

Desde que eu cheguei na Turquia, estava morrendo de vontade de ir a um casamento turco. Mas nenhum amigo dos meus amigos de Istambul se casou durante esses dois meses em que eu estou aqui. Semana passada, me mudei para Çifteköpru, pra trabalhar em uma plantação de chá. Mas, além de aprender sobre chá, que é o objetivo da minha viagem pelo mundo, estou descobrindo muito mais sobre a cultura da Turquia.

Nesse sábado, tive o privilégio de finalmente ir a um casamento. Não só turco, mas hemshin. Uma semana atrás, eu não tinha a menor ideia do que era isso. Parece nome de uma raça do Senhor dos Anéis: os hobbits, os elfos e os hemshins. Na verdade, os hemshins são um grupo étnico espalhados por diversos países do Oriente Médio e Ásia, como Turquia, Cazaquistão, Rússia e outros. Çifteköpru é um vilarejo hemshin. E aqui eles falam hemshin. Logo pensei: “Droga, meus dois meses de estudo de turco não serviram pra nada.”. Aí descobri que eles também falam turco. Ufa!

familia

E como é um casamento hemshin? Bom, a cerimônia eu perdi. Estava com o Yasar (o dono da fazenda) tomando uma cerveja Tuborg em um trapiche que dá para o Mar Negro. Tudo isso na cidade de Hopa, a maior da região. Entramos no salão e meus olhos brilhavam como os de uma criança com um sorvete de cinco bolas na mão. Era uma roda de pessoas dançando. Cem pessoas, ocupando o salão inteiro. De mãos dadas, mexendo os braços pra cima e pra baixo. Os passos coordenados, todos iguais. E a roda girava. A música é contagiante.

noiva e noivo

Só fiquei mais feliz quando as amigas hemshin do Yasar me chamaram pra ir dançar com elas na roda. Tanta energia. Tanta gente dançando sincronizada. Só conseguia pensar que, naquele momento, eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo, mas ali, vivendo aquela experiência única na minha vida.

eu ali no meio

Não conseguia seguir os passos. Primeiro, porque sou descoordenada. Segundo, porque o ritmo da música é 5/4. Ou seja, ao invés de contar 1,2,3,4,5,6,7 e 8, no ritmo hemshin, se conta: 1,2,3,4 e 5, e 1,2,3,4 e 5. Não faz o menor sentido. Só aprendi os passos depois da terceira música. Chuta pra frente com o pé esquerdo, com o pé direito, esquerdo, direito. Nesse mesmo chute, põe o pé direito pro lado direito. Dá dois passos pra trás, pé esquerdo e pé direito. E começa de volta. A roda toda gira junto, sincronizada. É lindo.

Aí também tem o animador da festa. Ele coloca uns tunch-tunchs no meio. E a galera começa a pular e a chutar forte. Pisaram no meu pé várias vezes, porque eu não sabia dançar. Chutam forte e dançam com as mãos dadas. Mãos pra cima, soquinhos pra frente. As mãos balançam pra baixo e voltam pra cima. Bom é que eu não precisava pensar nas mãos.  As vizinhas que estavam me dando a mão mexiam os meus braços por mim.

dani dancando

A roda se desfaz, todos sentam. O animador da festa grita palavras em hemshin. Outra roda se forma. Dessa vez, só homens. Pergunto pro Yasar por que só tem homens. E ele me diz que o animador chamou só os caminhoneiros. Aí, eu perguntei pro Yasar “Por quê? Eles não podem dançar com as outras pessoas?”. Eu já estava achando que era o maior preconceito. Mas, não, é só porque tem vários caminhoneiros na região. Mais tarde, o animador também chamou só os velhinhos, só as meninas etc etc.

Depois de toda essa dança, os noivos vão para o fundo do salão. O mestre de cerimônias pendura uma faixa no pescoço de cada um. Os convidados se levantam e formam uma fila. “Ne yapiyorlar?” (O que eles estão fazendo?), perguntei pra menina hemshin que estava do meu lado. Ela me puxou pelo braço e fomos lá ver.

Na fila, as pessoas seguravam notas de 100 e 50 liras. Chegamos até a noiva e aquela faixa que colocaram no pescoço dela agora estava cheia de notas grampeadas. Nos braços da noiva, pulseiras de ouro. Pulseiras bem grandes de ouro. Pensa em quantas máquinas de lavar, geladeiras, sofás e artigos de cama, mesa e banho pra mobiliar a sua casa dá pra comprar com tanto “oro”.

dinheiro e ouro

Depois da entrega de ouro e dinheiro, as luzes se apagam. Os noivos e família se juntam no fundo do salão. Eu, bem idiota, estava bem na frente deles, tirando fotos. Me puxaram para o lado. Era o bolo chegando. Não era realmente bolo. Cada andar era uma lata decorada e coberta por chantilly. Só o primeiro andar era bolo mesmo. Boa estratégia. Alguém entrega uma facona para os noivos. Eles seguram a faca juntos e cortam o bolo de mentira, passando a faca pelo chantilly de todos os andares. Entregam garfinhos para os noivos e eles comem chantilly juntos. É quase uma versão hemshin de noivos tomando champagne com os braços entrelaçados.

bolo chegou

Levam o bolo embora e os noivos saem do salão. Eles foram pra casa. Mais uma hora de festa e, depois, os convidados vão para a casa dos noivos. Sabe-se lá o que os noivos foram fazer em casa enquanto os convidados não chegam. haha

Perguntei para o Yasar se lá ia ter bebida. Ele falou que sim, bem animado. Ali, a gente só tava tomando Coca e água. Fiquei feliz também. Mas aí ele virou pra mim e disse: “Álcool só para os homens. As mulheres não bebem.”. E eu, espantada e triste, disse: “Por quê????”. E ele me explicou que aqui as mulheres não bebem em público. Só em casa ou entre amigos. Fué fué fué!

Pra minha sorte, o Yasar e os amigos dele desistiram de ir para a casa dos noivos. Passamos no posto, compramos cerveja e fomos pra casa. Oba, em casa eu posso beber! 🙂

Post de minha autoria, publicado originalmente no blog www.viajao.com em 29/10/13.