Um vilarejo, uma fazenda e uma família hemshin

Depois de um avião, um ônibus e um microônibus, cheguei em Borçka, a cidadezinha mais próxima de Çifteköpru. Lá, me encontrei com o Yasar, que é o dono da fazenda onde vou ficar morando por esse tempo. Pegamos uma carona e chegamos na casa dele. Já era noite.

Uma casinha simples. Entramos e, como de praxe em toda a Turquia, tiramos os sapatos na porta. Uma sala, um corredor, outra sala. Ele abre a porta e eu sinto o calor do fogão à lenha na minha cara. Já estava frio lá fora. Entro na sala e vejo um senhor ajoelhado no chão, em cima de um tapete preto de urso, rezando para o seu Allah.

cemal peq

O Yasar me mostra onde é o meu quarto. No final do corredor à direita. Tem duas camas grandes, com edredons e cobertores velhos. Faz muuuuito frio no quarto. Deixo minhas malas e volto para a sala.

teia de aranha peq

Da janela do meu quarto! ❤ Ok, ok, é lindo, mas eu já tirei a teia! haha

Sentamos no sofá, o Yasar e eu.  O pai dele, o Cemal, continua ajoelhado, rezando em voz alta, braços pra cima, se levanta e se abaixa, faz reverências. Ele termina de rezar, olha pra mim e me cumprimenta com um aperto de mão. Então, ele senta em um banquinho na frente do fogão à lenha e coloca a mão dentro do fogão. Eu me assusto, mas quando ele tira a mão de lá, vejo uma espiga de milho tostadinha, que estava queimando na brasa. Ele estica a mão pra mim, me oferecendo gentilmente. Eu olho pra mão dele, mão de agricultor, mão suja, unhas pretas e compridas. Eu respiro fundo, pego o milho e como. Estava uma delícia.

chaleiras peq

Chazinho feito no fogão à lenha! ❤ Aqui na Turquia, as chaleiras são assim, duplas!

Então, enquanto como meu milho, o Cemal pára na frente do Yasar e eles começam a gritar em uma língua estranha. O Cemal é bem surdinho, ele grita toda hora, com sua voz de Popeye. O Yasar grita também, pro pai dele escutar. E a língua que eles falam é hemshi. Çiftekopru é um vilarejo hemshin. Eles têm uma língua própria, costumes próprios e estão espalhados por alguns países do Oriente Médio, como Turquia, Rússia, Cazaquistão, e outros países.

cemal e yasar peq

O Cemal e o Yasar. Tiveram que parar de gritar pra tirar a foto! hahaha

Fico admirada com a cena. Eu com o meu milho tostado, o calor do fogão à lenha na minha cara, o Yasar e o Cemal gritando em Hemshin do meu lado, e a água da torneira escorrendo sem parar. “Yasar, posso fechar a torneira?” “É uma torneira velha, não fecha. Mas nem precisa, a água vem da montanha.”.

agua peq

A torneira, que fica escorrendo direto.

Essa primeira cena vai ficar guardada pra sempre na minha memória. Mas é óbvio que, na fazenda, nem tudo são flores. Depois do jantar que o Yasar preparou, fui ao banheiro e me deparei com o assustador banheiro turco. E, como se não bastasse, devia fazer muito, muito tempo que ninguém o limpava. O cheiro era pior que de banheiro de rodoviária. Foi tão assustador que fiquei três dias com prisão de ventre. Eu, que tenho a barriga que funciona que nem um reloginho. No dia seguinte, enfrentei o monstro e lavei o banheiro com muito sabão e água sanitária. Agora, só o buraco é assustador. O cheiro quase não está mais lá.

O segundo desafio foi e continua sendo as aranhas. Elas estão por todos lados. Por mais que eu limpe, limpe, limpe, elas voltam. Encontrei a primeira antes de dormir, logo que cheguei, enquanto sacudia todos os edredons e cobertores da minha cama. Corpo pequeno, pernas longas e compridas. Entrei em pânico, achei que era aranha marrom. Mas elas são só aranhas de mato. Ufa!

Esse foi só o primeiro dia na fazenda. E a aventura continua!

No próximo post, vou contar sobre os primeiros dias de colheita de chá! ❤

kids peq

Meus vizinhozinhos fofos! ❤